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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O forró no Brasil – contextualização histórica

No século XVI (chegada de portugueses em terras brasileiras), quando ocorre o encontro dos diferentes povos, de diferentes nações, algo de fato acontece à formação cultural brasileira. Ocorrerá cá nestas terras, o nascimento de uma identidade cultural sincrética que perpassa até os dias atuais.
“Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros, uns e outros aliciados como escravos” (RIBEIRO: 1995, p. 19).
A vocação musical dos índios que aqui estavam, era expressa não só no seu jeito de tocar, mas também na sua forma de dançar. Os portugueses tratam de “reeducar” estes primeiros povos pela catequese dos Jesuítas dentro dos aldeamentos onde os índios aprendiam a tocar flauta, viola e pandeiro.
Posteriormente, chegam os negros africanos com a sua ginga, o seu requebrado sensual e suas batucadas. A cultura nossa de cada dia inicia-se da junção dessas três culturas distintas.
No século XIX, após a chegada da corte de D. João VI, a cultura era associada ao conhecimento que algumas pessoas ditas “cultas” acumulavam ao longo da vida e também associada às artes de origem européia (pintura, literatura, música, teatro).
Devido a esta concepção de cultura, o Estado, durante o Império e a República Velha, criou instituições que excluíam mais ainda as expressões culturais da população indígena, negra e mestiça. Estas expressões eram classificadas pelos grupos dominantes como folclore, o que de fato soava negativamente. Durante este período da história brasileira, o Estado atuava, em temos culturais, como mecenas de artistas e intelectuais talentosos que surgiam. Obviamente eram beneficiados apenas aqueles cuja arte era de influência européia.

Estudiosos há tempos vêm se preocupando em decifrar esta manifestação cultural popular denominada de forró:
A primeira, quanto á palavra "forrobodó" (termo africano) foi conceituada pelo folclorista potiguar Luis da Câmara Cascudo, que significa: arrasta-pé, farra, confusão, desordem. Outros ainda tentaram decifrar este termo, mas sem concretude. Uma segunda teoria sobre a origem da palavra está associada à expressão da língua inglesa for all que quer dizer para todos. For All eram nomes colocados em placas nas portas dos bailes promovidos pelos ingleses no início do século XX. Estes eram engenheiros britânicos que vieram trabalhar na construção da ferrovia Great Westem em Pernambuco. Estes bailes eram abertos ao público. Como os nordestinos também participavam destes e não sabiam pronunciar a palavra original, então chamavam “forró”. A terceira versão substitui os ingleses pelos estadunidenses e Pernambuco pela Natal do período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar dos Estados Unidos foi instalada nesta cidade. Boa indicação para que se tenha um maior conhecimento desta base americana é o filme: For All - o trampolim da vitória (1997), sob a direção de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz.

Na quarta versão apregoa-se que o termo forró já havia sido mencionado antes mesmo da segunda guerra mundial (1939-1945). Em 1937, cinco anos antes da instalação da referida base em Natal e Pernambuco, a palavra "forró" já se encontrava registrada na história musical da gravação fonográfica de “Forró na roça”, canção composta por Manuel Queirós e Xerém no referido ano. Xerém representava as origens caipiras através do traje, do chapéu de palha ou de couro. Cantava, dançava, fazia composições, desenhava, construía instrumentos musicais e gravou mais 40 discos 78 RPM. Nascido na cidade de Baturité – CE em 1911, Xerém fez shows em todo Brasil e faleceu no ano de 1982 aos 71 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro.

Uma quinta e ultima versão talvez seja a designação mais coerente para o forró:
“O forró diferentemente dos diversos gêneros musicais brasileiros, tem data, hora e local do seu nascimento, assim como o nome dos pais, certo e sabido. O parto começou às quatro e meia de uma tarde de agosto de 1945, na Avenida Calógeras, no escritório do advogado Humberto Teixeira, no centro do Rio de janeiro, antiga Capital Federal. O trabalho de parto só findou lá para a meia noite, quando vieram ao mundo Asa Branca e Baião.” (ÂNGELO, 2006, p. 92).


É significativa esta explanação, para abrirmos um diálogo entre as várias vertentes e nos prender ao que de fato estar enraizado como forró até os dias atuais na figura do artista Luiz Gonzaga e do significado explicitado da música regionalizada (forró) àquela veiculada pelo folclorista Câmara Cascudo, forró como bagunça e desordem.



O forró coladinho, rala-bucho, rala-coxa; é xote, baião, xaxado, côco, marchas juninas... riqueza de gêneros da música nordestina.





Por FRANCISCO DAVID DE MORAIS FURTADO
Professor de geografia, personal dance, membro da ASPRODANÇA e da Associação Cearense do Forró.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Breve história do forró

Por Walmyr Castro

“É certo que o ritmo nasceu no Nordeste e foi apresentado ao sul do país por Luiz Gonzaga nos anos 40. Mas quando, onde e como ele apareceu lá no sertão ainda é, de certo modo, um mistério que vem dividindo muitos estudiosos e músicos.”

A versão dada pelo historiador e pesquisador da cultura popular Luís da Câmara Cascudo diz que a origem da palavra é o termo “forrobodó”. E esta tem algumas origens possíveis: farrobodó, farrundum e o termo oriundo do galego forbodo pelo francês fauxbourdon (falso bordão) entre outras. Os bailes eram chamados de “forrobodó” e com o tempo, por ser mais fácil pronunciar, simplesmente “forró”.
Outra versão viria do termo for all (para todos), afixados na entrada do baile de inauguração (ao som da zabumba e sanfona) da primeira estrada de ferro construída em Pernambuco pela companhia inglesa Great Western. Não há nenhuma sustentação para tal etimologia do termo, pois em 1937, cinco anos antes da instalação dos ingleses, a palavra “forró” já se encontrava registrada na história musical através da gravação fonográfica de “Forró na roça”.
A canção foi composta por Xerêm e Manoel Queiroz, gravada em 02 de julho de 1937 por Dão Xerém, Tapuya e sua Tribu na “Victor 34.222-b” (posteriormente RCA-Victor e BMG) e lançada no suplemento de outubro do mesmo ano. Este foi o primeiro disco a constar uma música instrumental com sonoplastia com ruídos diversos, algumas falas ao fundo e no título a palavra “forró”. Irmãos cearenses de Baturité, Xerém ou Dão Xerém chamava-se Pedro de Alcântara e Tapuia era Nadir Alcântara, “Sua Tribo” se apresentava com violão, cavaquinho, gaita de boca, cuíca, pandeiro e côro.
A EVOLUÇÃO DO SIGNIFICADO
Não é de agora a preocupação com a manipulação da mídia em relação ao forró.
No ano de 1974, Jackson do Pandeiro denunciava, em LP editado pela “Abril Cultural”, a situação de seu trabalho ao comentar: Mesmo com a perseguição da música estrangeira eu aguentei a barra durante doze (12) anos, eu e Luiz Gonzaga. Nunca parei de fazer gravações mesmo com a perseguição do iê iê iê. Comenta-se que o surgimento do iê iê iê causou a necessidade de apressar o “Baião” gerando o “Forró”.
Quando Jackson do Pandeiro lançou o disco “Isso é que é forró” (a palavra forró refere-se à festa), o repórter José Ramos Tinhorão comentou: Jackson do Pandeiro está oferecendo uma demonstração de força e atualidade que deve dar o que pensar aos que se entregam tão depressa, sem luta, às imposições da máquina responsável pelas modas musicais destinadas a um público manipulado. Hoje nós passamos pelas mesmas dificuldades. O que tem se apresentado atualmente na mídia está muito distante do verdadeiro forró. Alguns temas distorcem o significado do forró e nos levam a uma reflexão:Comportamentos destituídos de valores éticos e morais que causam um enorme prejuízo à cultura musical nordestina e à sociedade: Apologia ao alcoolismo, Misoginia moral, machismo e dominação sexual.
No “Domingão do Faustão” da Rede Globo no concurso “Dança dos Famosos” cujo ritmo seria o forró, apresentaram-se “xotes metalizados” com letras de MPB sem identificação alguma com o forró, vanerão, xote reggae, etc. E o forró? Onde está o ritmo forró? O ritmo é a pulsação da música. Atualmente o forró está passando por grandes transformações em relação a sua originalidade com o surgimento de propostas musicais divergentes, influências rítmicas não nordestinas e novos grupos amplamente explorados na mídia que distorcem o real significado do forró.
O ritmo é a pulsação da música. O que estão chamando de “forró pé de serra” ou “forró universitário” é “xote”. O que chamam de “forró eletrônico” é vanerão. Posso até dizer que o forró do gaúcho é o vanerão, mas nunca posso afirmar que vanerão é forró. É preciso discernir ritmo de gênero musical para que o povo entenda o valor cultural ao invés de aceitar a manipulação dos interessados apenas em dinheiro.
A preocupação é que essa música travestida de forró caracterizada pela metaleira sem ênfase à sanfona e pela descaracterização do ritmo e da dança passe a servir de referencial para as nossas manifestações culturais. O forró é o alicerce de várias delas no nordeste do Brasil e em particular no Cariri, tais como: grupos de pau de fita, reisado de congos, côco, manero pau, bandas cabaçais, xaxado, lampinha, penitentes, excelência e outros.
As primeiras festas de Luiz Gonzaga, maior divulgador do forró em todos os tempos, foram na feira do Crato junto com Januário na década de 20. O Crato é conhecida como Capital da Cultura, Princesa do Cariri e Oasis do sertão. Sem esquecer que é a terra onde nasceu Padre Cícero. A palavra é de Xerêm, o ritmo é de Gonzaga e o bem cultural (Patrimônio intelectual e imaterial) é do povo brasileiro.

walmyrcastro@hotmail.com Fones: (85) 8615.6000 – (85) 9911.3733