segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sexualidade x envelhecimento


"O desejo do amor não cessa no indivíduo por nenhum decreto jubilatório"

Em muitos de nossa sociedade, vejo indivíduos que vivem na Era da Tecnologia e deixaram seus órgãos genitais na Idade da Pedra.

O potencial para o prazer erótico é desenvolvido desde o nascimento até a morte. No entanto, os efeitos da idade não servem para nivelar as respostas sexuais, pois essas mudanças acontecem de acordo com a história de vida de cada pessoa.

Os casais podem e devem aprender formas de utilizar diferenças e mudanças a fim de solidificar a intimidade e aumentar o prazer e a satisfação que um pode oferecer ao outro. Para Kaplan, as técnicas de fazer amor podem ajustar-se às necessidades de estímulo de cada um, e as relações conjugais podem ser enriquecidas com adaptações mútuas, generosas e sensíveis às mudanças do funcionamento sexual de cada parceiro.

A revolução sexual nos anos 60 determinou importantes mudanças no comportamento sexual da sociedade. Entretanto, por mais que pareçam ultrapassados, os valores morais, sociais e sexuais ainda estão vivos dentro de cada um, de forma muitas vezes camuflada, quando muitos adultos continuam presos à necessidade primitiva e infantil de negar a seus pais uma vida sexual e restringi-los a papéis puramente paternais. Sexo na terceira idade é assunto ainda muito difícil de ser abordado.

A idade não dessexualiza o indivíduo, mas a sociedade sim. É ela que estereotipa e veicula uma sexualidade ligada à imagem de corpos jovens e saudáveis. Impondo aos seus velhos a obrigatoriedade de apresentar uma disfunção orgásmica, de excitabilidade e principalmente de desejo. Para alguns, esta idade é sinônima de chinelos, pijama, descanso, aposentadoria, ausência de objetivos, perda da alegria e da autoestima, sensação de inutilidade, de assexualidade e até mesmo da sensação de “morte em vida”.

Por outro lado, felizmente, há quem diga que a “vida começa aos 40”. Tem se tornado evidente a existência de mais dinamismo, novos estímulos, participação social, cultural e política, e até uma construção diferente da vida e da relação com o tempo por parte das pessoas na terceira idade.

Precisamos estar conscientes de que o envelhecimento é um processo fisiológico, não é uma enfermidade. O amadurecer pode trazer limitações físicas, mas não deve limitar a qualidade de vida, pois se o espírito for estimulado florescerá continuamente, refletindo-se na expressividade corporal.

O desejo do amor não cessa por nenhum decreto jubilatório. Amor é desejo da alma que acompanha o corpo até o fim. Velhice não quer dizer renúncia ao amor. É, em verdade, a fase da vida em que mais amamos com desprendimento. A sexualidade humana, em qualquer idade, terá de ser sempre uma invenção do espírito e um desafio à própria finitude. Sem isso, ela pode perder-se na mesmice e não encontrar sua vocação maior, ou seja, a descoberta do algo mais, do mais além de nós mesmos. Esta dimensão será possibilitada pelo afeto, caminho que descobrimos de tornar o outro especial.

Procuremos descobrir em nós mesmos a sagrada chama do amor. Algumas vezes parecerá que acabou. Mas não; soprem as brasas, mesmo sob as cinzas, e as verão arder. O amor está em nós. Ele é a nossa própria alma.

Zenilce Vieira Bruno
Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Fonte: Jornal O POVO


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