Tenho participado de grupos de gestantes na área de adscrição do NASF em que trabalho discutindo diversos temas ligados à gestação e ao parto. A temática das vantagens e desvantagens de cada tipo de parto reportou-me ao nascimento de minhas duas filhas, ambas de parto vaginal.
Convicta defensora do parto normal (vaginal) pela rápida recuperação, ausência de dor pós-parto que possibilitou tranqüilidade e favoreceu a lactação bem como a participação ativa no nascimento, tive a felicidade de parir por duas vezes como sempre desejei. Ressalto que a grande confiança no meu queridíssimo obstetra Dr. Aluízio Soares, parteiro extremamente habilidoso facilitou muito.
Não entendo por qual motivo hoje esse tipo de parto só é majoritário entre as mulheres com baixo poder aquisitivo que não dispõem de planos de saúde ou dinheiro para pagar particular. A prevalência do parto cesariana é arrasadora entre usuárias de planos de saúde, e até mesmo entre mulheres da área de saúde. Mesmo cientes do risco de morte da mãe bem mais elevado, do dobro de tempo na permanência hospitalar, além do risco de infecção e hemorragia, a cada ano a escolha por esse tipo de parto aumenta. Para o bebê, maior risco de ter desconforto para respirar após ser extraído.
Por outro lado, acho que a mulher tem o direito de escolha e lamento que muitas que desejam realizar uma cesariana não conseguem.
A medida que o tempo passa, essa diferença aumenta ao ponto do parto normal no Brasil ser “coisa de mulher pobre”.
Hoje é difícil encontrarmos médic@s que se disponham a acompanhar um parto normal. A grande maioria prefere marcar dia e hora e antecipar o nascimento das crianças mesmo que mãe e filho estejam saudáveis e em plenas condições para o parto vaginal.
No Serviço Único de Saúde estimulamos as mães ao parto natural, porém as mesmas não tem o direito de escolha usufruído pelas parturientes do Sistema Suplementar.
Oxalá todas as mulheres conquistem o direito de parir com segurança e da forma desejada!
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
ABORTO EM DEBATE
Por
Rebeca Mota Brito
Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Estadual do Ceará
Num País extremamente religioso como o Brasil debater a legalização do aborto é praticamente um tabu. Esse estigma social em torno do tema é fruto de um processo histórico de criminalização da mulher, controle da sua reprodução e negação do seu direito ao corpo.
Um estudo realizado pela Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) em 2010 revela que mais de uma em cada cinco mulheres entre 18 e 39 anos já fizeram um aborto no Brasil, o que me leva a questionar: Quem não fez ou conhece alguém que já fez um aborto?
Embora o aborto inseguro seja a terceira maior causa de mortalidade de mulheres no Brasil, a população pouco conhece desses números e o debate fica centralizado em idéias religiosas e moralistas que muito questionam o direito a vida do feto, mas que desconsideram a condição social da futura mãe, as dificuldades que passa (tanto materiais: em poder fornecer as necessidades básicas, como subjetivas, psicológicas), seus projetos para o futuro; se sofre violência dentro de casa, se sequer desejou uma criança ou esta apenas cumprindo um processo natural obrigatório de cada mulher: ser mãe. Idéias que servem como mecanismos de controle, manutenção e reprodução do machismo e da opressão a mulher em sociedade.
A reprodução feminina é um direito individual de escolha, é o direito de cada mulher decidir se quer ou não ter filhos, quantos quer e em que momento da vida. É ter acesso a informações e métodos que possam lhe dar o controle sobre a maternidade e o direito ao seu corpo sem nenhuma forma de imposição.
Afirmar que com a legalização as mulheres vão abortar de forma irresponsável é tratá-las como seres incapazes de tomar decisões, incapazes de poder pensar sozinhas, precisando sempre do tutelamento de um homem, é ignorar ainda uma realidade: que milhares de mulheres morrem todos os dias vítimas de abortos inseguros. O aborto não é uma decisão tomada levianamente, é uma decisão difícil e brutal (para a própria mulher) que precisa ser respeitada. É uma questão de autonomia feminina e de saúde pública. Além disso, os números mostram que em todos os países onde o aborto foi legalizado não ocorreu um aumento dessa prática, muito pelo contrário, houve uma diminuição, pelo fato do aborto, ao ser considerado questão de saúde pública e não caso de policia, veio acompanhado de uma eficiente política contraceptiva.
É necessário que sejam promovidos debates francos sobre o tema, que tratem de fato da realidade do nosso país, em que de acordo com o Ministério da Saúde, uma mulher morre a cada dois dias em decorrência de aborto inseguro, a maioria jovens, negras e pobres que não tem dinheiro para pagar um “procedimento” numa clínica, e tem que recorrer a remédios que podem causar sérios danos a saúde, ou aos açougueiros que movimentam a indústria clandestina do aborto. O aborto já é legalizado para as mulheres ricas, pois podem pagar por uma cirurgia simples e segura em uma clinica especializada. Já as mulheres pobres têm de se submeter a abortos em condições insalubres, que geralmente resultam em várias complicações, porém pelo fato do aborto ser ilegal, estas não podem procurar socorro médico nas redes publicas, pelo fato de poderem ser presas. Desta forma, a criminalização do aborto no Brasil só tem servido para levar à morte milhares de mulheres pobres, que não precisariam morrer se pudessem fazer tal “procedimento” em condições seguras pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
ENQUANTO ISSO...
Tramitam no Congresso dois projetos de lei que, se aprovados serão um duro ataque aos direitos das mulheres. Um deles é o Estatuto do Nascituro que impedirá a realização de abortos até em casos de estupro, oferecendo pensão alimentícia à criança; e outro é o projeto que defende a obrigatoriedade do cadastramento de gestante no diagnóstico da gravidez, obrigando-a a ter sua vida reprodutiva vigiada.
Para aprofundar o debate:
http://catolicasonline.org.br
http://frentepelodireitoaoaborto.blogspot.com/
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/aborto_e_saude_publica_vs_preliminar.pdf
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